8 de agosto de 2014

JÁ PARA A COZINHA

‘Cozinhas Temporárias’ é o tipo de obra de arte que nos faz (re)pensar em nossos papéis como atores sociais e nossas responsabilidades. As artistas e pesquisadoras Ines Linke e Louise Ganz entrincheiraram-se por entre as ruas de um bairro localizado na região metropolitana de Belo Horizonte para mapearem e buscarem através de conversas com moradores e funcionários de empresas locais por todo e qualquer pedaço de terra (quintais, terrenos vagos) que pudesse ser utilizado.


Thislandyourland, como são conhecidas as artistas, invade o espaço cotidiano alterando a percepção dos participantes (moradores) através de processos de trabalho compartilhados que são capazes de potencializar a percepção das pessoas em relação ao ambiente em que vivem e que as circunda através de práticas de reflexão a partir de práticas de criação, de expressão e intervenção.



As artistas propõem a (re)ocupação dos quintais das casas e de terrenos não utilizados no bairro Jardim Canadá em Nova Lima, para o plantio de frutas, hortaliças e outros produtos, da utilização de vasos, baldes, jardineiras para aqueles que não tem uma porção de terra, ou que moram em apartamentos ou áreas totalmente impermeabilizadas pelo concreto das cidades.


Os moradores por sua vez tomam consciência de todo o processo de caráter social, transformador, as artistas são nesse sentido mediadoras e agentes promotores de ações e situações. Essas situações foram arquitetadas para aproximar os moradores desse bairro em torno de atividades experienciais que tinham como objetivo de acordo com as próprias artistas “a colaboração dos moradores no empréstimo dos espaços e com a coleta de produtos nos quintais do entorno, cozinhando apenas com os produtos coletados nos quintais”, e acima de tudo, “criar situações que permitissem uma forma de sociabilidade e modos alternativos de ocupar e consumir a cidade”.

O ato de cozinhar somente com os produtos obtidos localmente, envolvendo os moradores (participantes) em sua produção e obtenção levou-os a situações indefinidas, já que não sabiam – e não podiam controlar - qual seriam os pratos preparados até que se obtivessem os insumos. Os espaços para preparação, consumo e reunião para degustação foram todos conseguidos por parcerias ou empréstimos por parte dos próprios moradores do bairro Jardim Canadá.
omelete preparado pela população local com produtos locais
comida preparada com produtos produzidos localmente

A contemporaneidade nos exige cotidianamente ações mais sustentáveis: consumo consciente, máximo aproveitamento dos recursos disponíveis, zero desperdício e outros, impelindo-nos a uma alteração de nosso modo de vida.
mobiliário desenvolvido para o projeto 'Cozinhas temporárias'

A experiência ‘Cozinhas temporárias’ não promove o abandono às idas ao supermercado, ao consumo de produtos advindos de grandes redes de produção nacional e mundial, e sim, o estabelecimento de ‘situações’ concretizadas através de gestos artísticos performáticos que levam a reflexão de como a sociedade contemporânea moldou, e continua moldando, nossos comportamentos, de como estamos deslocados e perdemos o contato com a natureza humana.


Horta comunitária

Depois da colheita, preparação dos alimentos


fonte das imagens: http://www.thislandyourlandtrabalhoseprojetos.blogspot.com.br/

7 de novembro de 2013

MANIFESTO CRIATIVO COMME DES GARÇONS

(Ou) REI KAWAKUBO: DESIGNER/ CRIADORA/ ARTISTA PREOCUPADA COM OS RUMOS DE SUAS CRIAÇÕES

No último dia 27 de outubro, Rei Kawakubo (Comme des Garçons) publicou na revista System um manifesto que faz referência direta à coleção de primavera-verão da marca desfilada no fim do mês de setembro. Esta não é a primeira vez que Rei e CdG se utilizam desse recurso que é próprio do mundo da arte, já o tinham feito quando do lançamento da guerrillas stores, mas disso falaremos em um post futuro.


 
                                   Looks da coleção SS 2014 desfilados mês passado em Paris.

O que leva uma marca como a Comme des Garçons a lançar um manifesto um mês após o lançamento da coleção? 



Bem, em minha opinião, a coleção deve ter suscitado muitos questionamentos aos editores presentes na platéia do desfile, e aos consumidores, ao apresentar objetos que são muito mais objetos para serem postos sobre o corpo do que roupas. E para muitos o que Rei Kawakubo e Comme des Garçons apresentaram foi uma coleção que se aproxima da arte, uma coleção que flerta e se utiliza da arte para se expressar.

Ao lermos o manifesto publicado percebemos que Rei Kawakubo se coloca na posição de uma artista que contesta o mundo que a cerca, as fontes de referência de um criador, de acordo com o escrito não podem pré-existir. Rei contesta todas as fontes tradicionais mostrando-nos que o que resta é o artista/criador como interface interpretativa do mundo:


"Só posso esperar pela chance  algo completamente novo nasça dentro de mim".


E deixa claro para os leitores, que nada vem fácil, que o processo criativo - para ela - é permeado pelo sofrimento do designer/ criador/ artista que deseja entregar ao mundo 'coisas' que sejam novas, nunca antes vistas num momento da contemporaneidade em que tudo parece já ter sido feito.


"Esta regra que eu sempre dou a mim mesma: que nada novo pode vir de uma situação que envolva ser livre ou que não envolva sofrimento".


Reprodução do manifesto original.







































O MANIFESTO CRIATIVO¹


Visitar museus e galerias, ver filmes, falar com pessoas, ver novas lojas, olhar para revistas tolas, prestar atenção nas atividades das pessoas na rua, olhar arte, viajar: todas essas coisas não são úteis, essas coisas não me ajudam, não me dão nenhum estímulo direto para ajudar minha pesquisa por algo novo. E nem para a história da moda. A razão para isso é que todas essas coisas acima, já existem.

Somente posso esperar pela chance que algo completamente novo nasça dentro de mim.

A maneira que vou olhando para isto intimamente é começar com um 'tema' temporário. Eu crio uma imagem abstrata na minha mente. Eu penso paradoxalmente (oposicionalmente) sobre os padrões que eu já usei. Eu coloco partes dos padrões em lugares nos quais eles geralmente não se encaixam. Eu rompo com a ideia de 'roupa'. Eu penso em usar, para tudo, o que usariam normalmente para uma coisa. Eu me imponho limites. Eu persigo uma situação na qual eu não sou livre. Eu penso num mundo onde só tenha as mais pequenas e estreitas possibilidades. Eu me enclausuro. Eu acho que tudo o que se fez até hoje, relacionado ao fazer roupas, não é bom. Essa é a regra que eu sempre me imponho: que nada novo pode vir de uma situação que envolva ser livre ou que não envolva sofrimento.


Para fazer esta coleção de primavera-verão 2014, eu queria mudar a rota usual dentro da minha mente. Tentei olhar para tudo que eu olho de uma maneira diferente. Eu pensei em uma maneira de fazer isto que foi começar com a intenção de nem tentar fazer roupas. Eu tentei pensar e sentir e ver como se eu não estivesse fazendo roupas.

Rei Kawakubo, outubro 2013.

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1. Tradução livre feita pelo autor do blog.

5 de novembro de 2013

THEY CAN POP UP, THEY CAN MOVE

(OU) DUAS INICIATIVAS MÓVEIS PARA AGITAR A CIDADE



Sempre que falamos em iniciativas ‘pop up’ lojas são as primeiras a serem citadas. Mas já pensou em uma área verde pop up e móvel, e em uma praça e a possibilidade de variadas atividades surgindo onde quer que se precise delas?

Baku, a capital do Azerbaijão e um time de designers provou ser capaz de deixar a cidade mais verde com o projeto ParkcycleSwarm, e a possibilidade de ‘construir’ um parque público e instantâneo em qualquer parte da cidade.


A plataforma pedalável pode ocupar desde a área equivalente a ocupada por um carro, ou vários módulos podem se juntar instalando uma grande área verde e de lazer. O projeto tem como objetivo discutir as extensas áreas reservadas aos automóveis, e cada vez menos espaços de recreação.


O Cricklewood Town Square um espaço público móvel conectado a uma bicicleta transforma espaços vazios em eventos comunitários. Em seu interior carrega bancos, mesas, jogos, guarda-sóis, tudo que possa transformar uma grande área vazia e subutilizada em um grande evento a céu aberto.



Com pouco mais de dez metros quadrados quando aberto e desmembrado, o projeto pretende levar diversão e espaços de convívio em comunidade para Cricklewood no nordeste de Londres. A estrutura pode assumir a função de biblioteca, venda de comida, e é um bom exemplo de iniciativa que pode ser posta em prática em todas as cidades e comunidades pelo mundo todo.

E que tal pensarmos em iniciativas similares para as cidades brasileiras, grandes ou pequenas, mais ricas ou mais pobres.

André Ribeiro de Barros


28 de junho de 2013

'Comprimidos ou gotas' ou 'Visual Merchandising de farmácias pelo mundo'


farmácia belga chamada "M", projeto Caan Architecten
Soa um tanto quanto estranho falar sobre visual merchandising para farmácias, já que os produtos comercializados por esses espaços não precisam - e nem devem - seduzir as pessoas já que na maior parte das visitas e compras, os consumidores vão até eles por necessidade.


farmacia em La Puebla 15, Palencia,Espanha; projeto Buj+Cólon Arquitectos

Não podemos deixar de ter em mente que hoje em dia as farmácias comercializam mais do que remédios, vendem cosméticos, suplementos alimentares, produtos de higiene pessoal, e outros.


"Nós adoramos usar cor como uma ferramenta que leva as pessoas a sentir a atmosfera que nós queremos lhes mostrar, tornando a experiencia de comprar medicamentos em um evento social". Cutu Mazuelos, Stone Designs


Esses espaços, pequenas pílulas de decoração e visual merchandising, proporcionam uma compra agradável, comunicam através da arquitetura e do interior quais são as propostas de valor entregues aos clientes, não deixando de proporcionar uma experiencia de compra agradável - em todos os sentidos - aos seus clientes.



Renega-se a má organização, as estantes tradicionais, os corredores apertados, em benefício de espaços sadios, coloridos, e até mesmo divertidos porque não.


farmácia belga chamada "M", projeto Caan Architecten

André Ribeiro de Barros

2 de abril de 2013

Vestido como um homem


[Abertura]

Ignore o que o povo diz

vista um terno para ir ao supermercado 
ou correr até a banca de jornal, se você sente que deve
Roupas
Devem ser
a expressão de
seu eu interior, mas
elas devem também mostrar
uma certa dose de cortesia.
vestir-se adequadamente é um
gesto de bondade,

para si e para os outros




'thinker, dreamer, consumer' foi o título dado por Angelo Flaccavento, conceituado crítico de moda, a exposição curada por ele na última edição da mais importante feira de moda masculina, a Pitti Uomo em Florença.

A curadoria comissionada pela própria feira juntamente com a loja virtual thecorner.com para o espaço entitulado Vestirsi da Uomo (Vestido como um homem) traz a perspectiva de Flaccavento para o que seria o guarda-roupa ideal do homem contemporâneo.


[Insinuação]
Crie seu próprio guarda-roupa de acordo com a ideia que você tem de você em mente. Deixe o imaterial dar forma a sua persona, sem restriçoes ou limites de qualquer tipo. Listras e estampas incompatíveis podem ser para você o que o total preto ou o cinza é para os outros, mas esta é somente a questão do todo que é o jogo da moda.


As peças que compunham este guarda-roupa, e a exposição, estavam diretamente conectadas a personalidade de Angelo, que possui um estilo bem desenhando e marcante.






No texto de apresentação da exposição, e no livro que a acompanhava o editor faz reflexões do que é em sua visão o vestir masculino hoje, dá dicas de o que observar e propõe exercícios aos homens contemporâneos.


[Exercício]

Aja vago.
Mantenha o essencial
visível aos olhos.
O que você vê
é o que você vê
não é você.
Cabe a você.

Angelo Flaccavento  sugere referencias, propõe uma seleta cartela de cores, e nos convida - homens contemporâneos - a encarar a hora do vestir como uma jornada de auto conhecimento e exploração de um campo experimental, a moda, que admite erros e ajustes, que nos permite olhar para o passado como referencia, e para o presente como possibilidades  múltiplas de composição.

André Ribeiro de Barros

Nota: os pequenos textos que acompanham o post são de autoria de Angelo Flaccavento e integram o volume 'thinker, dreamer, consumer' e foram traduzidos livremente pelo autor do post.

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14 de fevereiro de 2013

Um curioso olhar ou Fotografando com Scott Schuman

Ao visitar a última edição da Pitti Uomo em janeiro na cidade de Florença me deparei com Scott Schuman - do blog de streetstyle mais famoso do mundo da moda, The Sartorialist - abordando uma garota para registrar o look escolhido para visitar a feira naquele dia.

Pitti Uomo 83, Florença, janeiro 2013.

Em poucos minutos, Scott dita/ensina tudo que deseja registar a garota que prontamente o atende. Primeiro o fotógrafo pede que ela se sente, num dos cenários mais clássicos , ajeita ele mesmo a saia dela, a bolsa, e mostra como deve ser a pose que deve fazer que é encenar como se estivesse trocando mensagens com alguém no smartphone.

Pitti Uomo, Florença, janeiro 2013.

Até o momento esta foto não foi ao blog, mas fica a liçao, todo fotógrafo também é um pouco editor de moda.

André Ribeiro de Barros

ps: O post também tá lá no blog da Tendere

29 de outubro de 2012

Captain is on the bridge!

O  mundo da ficção científica ganha sua mais nova - e temida - capitã, Naomi Campbell. 
A modelo americana acaba de ganhar de presente de seu namorado russo uma casa desenhada pela arquiteta israelense Zaha Hadid.


Composta por três volumes principais, dois no solo e outro a mais de vinte metros de altura, assemelham-se muito a uma nave espacial, seguindo a linguagem que já vem sendo utilizada por Hadid há vários anos e em inúmeros projetos espalhados pelo mundo.

o projeto da casa foi plantado em uma região cercada de árvores, e a sala de jantar foi colocado neste volume que fica destacado do chão numa espécie de torre - ou ponte - de comando prestes a dar a ordem de decolagem.



23 de outubro de 2012

O TÚNEL FUTURISTA



A marca LN-CC inaugurou sua nova loja em (mês e ano) trazendo um visual merchandising que lembra em muito um túnel futurista, e também as variadas naves espaciais que já assistimos nos seriados e filmes de ficção científica. não há como não lembrar de Jornada nas Estrelas, Guerra nas Estrelas, e até o célebre filme da década de 1960 com Jane Fonda, Barbarella.


O interior do túnel foi feito em madeira bruta e acrílico laranja, o que confere a loja o aspecto de projetado no futuro. Os espaços interiores possuem cápsulas que são delimitadas em seus contornos por ripas de madeira. Um dos ambientes se destaca por seu caráter monolítico e cinza pontuado por uma iluminação que destaca os volumes paralelepípedicos deixando a sensação que as roupas flutuam em um ambiente sem gravidade.




16 de outubro de 2012

Vestindo um homem contemporâneo

A segunda loja da multimarcas sueca Haberdash, exclusivamente de moda  masculina, contou com projeto da firma FUWL (Form Us With Love) que imprimiu limpeza, claridade e uma organização bem tradicional ao interior da loja.


O partido do visual merchandising prezou pelo tom contemporâneo e atemporal seguindo o perfil do público consumidor - homens contemporâneos. As paredes, o piso e o teto, em tons neutros, faz com que os produtos se destaquem, e facilita a mimetização de alguns elementos presentes, como as tubulações de água e luz. O mobiliário em sua maioria composto por cavaletes e pranchas servindo de expositores dos produtos, estes sempre com iluminação focada organizada em arranjos de grande simplicidade. 



Nas paredes estruturas modulares permitem fácil rearranjo dos sapatos e bolsas expostas, já as roupas ficam em araras construídas por tubulações. Alguns pontos do espaço foram escolhidos para que ambientações fossem criadas para envolver o homem que ali adentra, encantando-os e exibindo desejos a serem comprados.


O mobiliário modular permite a fácil realocação e o rearranjo da loja com pequenas alterações, o que é muito importante para pequenas lojas e/ou aquelas com poucos recursos no cotidianos da promoção de vendas.




André.




11 de outubro de 2012

Mi mi mis 2

Ou Moda masculina para homens (?) ou ainda Nova elegância masculina*


Depois de rever anotações, videos e discutir livremente com algumas pessoas sobre o que seria essa nova elegância masculina ou a moda masculina para homens fui construindo o texto para responder (quem sabe só para mim mesmo) algo bem complexo: qual o modelo de elegância que o homem brasileiro está em busca?

Falar de moda com esse homem-macho-másculo está ficando mais fácil, eles tem se aberto e se interessado cada vez mais por moda. Dos homens que fazem parte da nova classe média, 54% admitem se interessar.


David Beckham, Cristiano Ronaldo, Scott Schuman, Neymar, Nick Wooster, Simone Marchetti, Brad Goresky, Sylvain Justum, Angelo Flaccavento. Será que são esses os nomes que eles esperam  que lhes dêem como referência? Será que as revistas, blogs, mídia especializada e as grandes lojas de magazine estão prestando atenção a esse público, que até 2014 somará cerca de 60 milhões de homens?


Color blocking de cores berrantes, sapatos coloridos com solas também coloridas, calças e camisas floridas, estampas que exalam criatividade, looks super elaborados? 

Será que o mercado de moda masculina - e acessível a este público - está preparado, da mesma maneira que o mercado feminino está? As grandes lojas como Renner, Riachuelo, C&A por exemplo ofertam produtos que os agrade?

E onde ficam os homens 'normais' que entendem o que é o tal do color blocking e estão antenados nas tendências, mas preferem cores menos chamativas, admiram um belo par de sapatos coloridos, mas no fim das contas, querem comprar um com cor mais sóbria e pequenos detalhes; aqueles que se espelham e tem como modelo pessoas como o cantor Criolo?

Esse grande contingente de homens interessados por moda, em estar na moda (sem ser vítima) e sobretudo, com poder de compra, precisa ter seus desejos correspondidos, precisa ter alternativas que o satisfaça, precisa e vai querer ter canais de comunicação que dialoguem na mesma sintonia.


André Ribeiro de Barros

*Esse texto tinha outra intenção quando o comecei a rascunhar: era questionar o porque dos blogs masculinos tratarem o público masculino por apenas um viés, e deixando outros de lado.